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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Batman: o cavalheiro das trevas ressurge.. por Slavoj Zizek

Já tinha ouvido falar algumas vezes sobre a analise de S. Zizek sobre o filme, mas, por conta da dissertação, ainda nao havia tido tempo de assistir ao filme com calma..essa ultima noite o fiz... terminei o filme, e corri para a internet, para ler o tal artigo.. que resumo como - maravilhoso!!!!

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Por Slavoj Žižek.

Confira abaixo artigo inédito, traduzido por Rogério Bettoni, enviado com exclusividade pelo autor para a Boitempo publicar em seu Blog.

Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge confirma mais uma vez como os blockbusters de Hollywood são indicadores precisos da situação ideológica da nossa sociedade. A narrativa (resumida) se dá da seguinte maneira. Oito anos depois dos eventos de Batman – O Cavaleiro das Trevas, capítulo anterior da saga Batman, a lei e a ordem prevalecem em Gotham City: sob os extraordinários poderes do Ato Dent, o comissário Gordon praticamente erradicou o crime violento e organizado. No entanto, ele se sente culpado pela cobertura dos crimes de Harvey Dent (Dent morreu ao tentar matar o filho de Gordon, salvo por Batman, que assumiu a culpa em nome da manutenção do mito de Dent, levando a uma demonização de Batman como vilão de Gotham) e planeja admitir a conspiração em um evento público de celebração a Dent, mas acaba concluindo que a cidade não está preparada para a verdade. Bruce Wayne, que não atua mais como Batman, vive isolado na própria Mansão enquanto sua empresa desmorona depois de ter investido em um projeto de energia limpa criado para aproveitar a energia nuclear, mas encerrado quando ele descobriu que o núcleo poderia ser transformado em uma bomba. A lindíssima Miranda Tate, membra do conselho administrativo da Wayne Enterprises, convence Wayne a refazer a sociedade e continuar com seus trabalhos filantrópicos.

Aqui entra o (primeiro) vilão do filme: Bane, líder terrorista e antigo membro da Liga das Sombras, consegue a cópia do discurso de Gordon. Depois que as tramas financeiras de Bane quase levam a empresa de Wayne à falência, Wayne confia a Miranda a tarefa de controlar seus negócios, além de ter com ela um breve caso amoroso. (Nesse aspecto ela compete com a gata-ladra Selina Kyle, que rouba dos ricos para redistribuir a riqueza, mas acaba se juntando a Wayne e às forças da lei e da ordem.) Ao descobrir a movimentação de Bane, Wayne retorna como Batman e confronta Bane, que afirma ter assumido a Liga das Sombras após a morte de Ra’s Al Ghul. Depois de deixar Batman gravemente ferido em um combate corpo a corpo, Bane o coloca numa prisão de onde é praticamente impossível fugir. Seus companheiros de prisão contam para Wayne a história da única pessoa que conseguiu escapar: uma criança motivada pela necessidade e pela mera força de vontade. Enquanto o prisioneiro Wayne se recupera dos ferimentos e se prepara para ser Batman de novo, Bane consegue transformar Gotham City em uma cidade-Estado isolada. Primeiro ele atrai para o subsolo a maior parte dos policiais de Gotham e os prende lá; depois provoca explosões que destroem a maioria das pontes que conectavam Gotham City ao continente, anunciando que qualquer tentativa de deixar a cidade resultaria na detonação do núcleo de Wayne, do qual se apoderou e transformou em uma bomba.

Chegamos então ao momento crucial do filme: a tomada de poder por parte de Bane acontece junto com uma vasta ofensiva político-ideológica. Bane revela publicamente o acobertamento da morte de Dent e liberta os prisioneiros detidos pelo Ato Dent. Condenando os ricos e poderosos, ele promete devolver o poder ao povo, convocando as pessoas comuns a “tomarem a cidade de volta” – Bane revela-se como “o manifestante definitivo do Occupy Wall Street, convocando os 99% a se juntarem para derrubar as elites sociais”[1]. Segue-se então a ideia do filme de poder do povo: uma sequência mostra uma série de julgamentos e execuções dos ricos, as ruas tomadas pelo crime e pela vilania… alguns meses depois, enquanto Gotham City continua sofrendo o terror popular, Wayne consegue fugir da prisão, retorna a Gotham como Batman e convoca os amigos para ajudá-lo a libertar a cidade e desarmar a bomba nuclear antes que ela exploda. Batman confronta e domina Bane, mas Miranda intervém e apunhala Batman – a benfeitora social revela-se como Talia al Ghul, filha de Ra’s: foi ela que escapou da prisão quando criança e foi Bane que a ajudou a fugir. Depois de comunicar seu plano de terminar a tarefa do pai de destruir Gotham, Talia foge. Na confusão que se segue, Gordon destrói o dispositivo que permitia a detonação remota da bomba enquanto Selina mata Bane, permitindo que Batman vá atrás de Talia. Ele tenta forçá-la a levar a bomba para a câmara de fusão onde pode ser estabilizada, mas Talia inunda a câmara. Talia morre quando seu caminhão bate, confiante de que a bomba não pode ser detida. Usando um helicóptero especial, Batman transporta a bomba para além dos limites da cidade, onde ela explode sobre o oceano e supostamente o mata.

Agora Batman é celebrado como um herói cujo sacrifício salvou Gotham City, enquanto Wayne é tido como morto nos motins. Após seus bens serem divididos, Alfred vê Bruce e Selina juntos em um café em Florença, enquanto Blake, jovem policial honesto que conhecia a identidade de Batman, herda a Batcaverna. Em suma, “Batman salva a situação, aparece incólume e continua com uma vida normal, enquanto outro o substitui no papel de defender o sistema”[2]. A primeira pista dos fundamentos ideológicos desse final é dada por Gordon, que, no (suposto) enterro de Wayne, lê as últimas linhas de Um conto de duas cidades, de Dickens: “Esta é, sem dúvida, a melhor coisa que faço e que jamais fiz; este é, sem dúvida, o melhor descanso que terei e que jamais tive”. Alguns críticos do filme interpretaram essa citação como um indício de que o filme “atinge o nível mais nobre da arte ocidental. O filme apela para o centro da tradição norte-americana – o ideal do nobre sacrifício pelo povo comum. Batman deve se humilhar para ser exaltado e renunciar à própria vida para encontrar uma nova. [...] Como máxima figura de Cristo, Batman sacrifica a si para salvar os outros”[3].

Dessa perspectiva, com efeito, Dickens está apenas a um passo de distância de Cristo no Calvário: “Pois aquele que quiser salvar a sua vida, vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. De fato, que aproveitará ao homem se ganhar o mundo inteiro mas arruinar a sua vida?” (Mt 16:25-26 da Bíblia de Jerusalém). O sacrifício de Batman como repetição da morte de Cristo? Essa ideia não seria comprometida pela última cena do filme (Wayne com Selina em um café em Florença)? O equivalente religioso desse final não seria a conhecida ideia blasfema de que Cristo realmente sobreviveu à crucificação e teve uma vida longa e pacífica (na Índia, ou talvez no Tibete, de acordo com algumas fontes)? A única maneira de remir essa cena final seria interpretá-la como um devaneio (alucinação) de Alfred, que se senta sozinho em um café em Florença. Outra característica dickensiana do filme é a queixa despolitizada sobre a lacuna entre ricos e pobres – no início do filme, Selina sussurra para Wayne enquanto eles dançam em um baile exclusivo da elite: “Está vindo uma tempestade, sr. Wayne. É melhor que estejam preparados. Pois quando ela chegar, todos se perguntarão como acharam que poderiam viver com tanto e deixar tão pouco para o resto”. Nolan, como todo bom liberal, está “preocupado” com essa disparidade e reconhece que essa preocupação impregnou o filme:

O que vejo do filme relacionado ao mundo real é a ideia de desonestidade. O filme inteiro trata da chegada do seu ponto crítico. [...] A ideia de justiça econômica perpassa o filme, e por duas razões. Primeiro, Bruce Wayne é um bilionário. Isso tem de ser levado em conta. [...] E segundo, há muitas coisas na vida, e a economia é uma delas, em que precisamos confiar em grande parte do que nos dizem, pois a maioria de nós se sente desprovida das ferramentas analíticas para saber o que está acontecendo. [...] Não acho que existe uma perspectiva de direita ou de esquerda no filme. Ele faz apenas uma avaliação honesta, ou uma exploração honesta, do mundo em que vivemos – de coisas que nos preocupam.[4]

Por mais que os espectadores saibam que Wayne é extremamente rico, eles tendem a se esquecer de onde vem a riqueza dele: fabricação de armas e especulação financeira, e é por isso que as jogadas de Bane na Bolsa de Valores podem destruir seu império – traficante de armas e especulador, esse é o verdadeiro segredo por trás da máscara do Batman. De que modo o filme lida com isso? Ressuscitando o tema arquetípico dickensiano do bom capitalista que se envolve no financiamento de orfanatos (Wayne) versus o mau e ganancioso capitalista (Stryver, como em Dickens). Nessa moralização dickensiana excessiva, a disparidade econômica é traduzida na “desonestidade” que deveria ser “honestamente” analisada, embora não tenhamos nenhum mapeamento cognitivo confiável, e uma abordagem “honesta” como essa nos leva a mais um paralelo com Dickens – é como afirmou Jonathan (corroteirista), irmão de Christopher Nolan, sem rodeios: “Para mim, Um conto de duas cidades foi o retrato mais angustiante de uma civilização reconhecível e descritível que se desintegrou completamente em pedaços. Com os terrores em Paris, na França daquela época, não é difícil imaginar que as coisas dariam tão errado assim”[5]. As cenas do vingativo levante populista no filme (uma multidão sedenta pelo sangue dos ricos que os ignoraram e exploraram) evocam a descrição de Dickens do Reino do Terror, tanto que, embora não tenha nada a ver com política, o filme segue o romance de Dickens ao retratar “honestamente” os revolucionários como fanáticos possuídos, e assim fornece a caricatura do que, na vida real, seriam revolucionários comprometidos ideologicamente no combate da injustiça estrutural. Hollywood conta o que oestablishment quer que saibamos – que os revolucionários são criaturas brutais, sem nenhum respeito pela vida humana. Apesar da retórica emancipatória sobre a libertação, eles têm projetos sinistros por trás. Portanto, quaisquer que sejam as razões, elas precisam ser eliminadas.[6]

Tom Charity destacou corretamente “a defesa que o filme faz do establishmentna forma de bilionários filantrópicos e uma polícia corrupta” – na sua desconfiança das pessoas que resolvem as coisas com as próprias mãos, o filme “demonstra tanto o desejo por justiça social quanto o medo do que realmente pode parecer nas mãos de uma multidão”[7]. Aqui, Karthick levanta uma questão bem clara sobre a imensa popularidade da figura do Coringa no filme anterior: qual o motivo de uma atitude tão hostil para com Bane quando o Coringa foi tratado com tanta mansidão no filme anterior? A resposta é simples e convincente:

O Coringa, que clama por anarquia na sua mais pura manifestação, enfatiza a hipocrisia da civilização burguesa como ela existe, mas é impossível traduzir suas visões em uma ação de massa. Bane, por outro lado, representa uma ameaça existencial ao sistema de opressão. [...] Sua força não é apenas a psique, mas também sua capacidade de comandar as pessoas e mobilizá-las rumo a um objetivo político. Ele representa a vanguarda, o representante organizado dos oprimidos que promove a luta política em nome deles para gerar mudanças sociais. Tamanha força, com o maior dos potenciais subversivos, não tem lugar dentro do sistema. Ela precisa ser eliminada.[8]

No entanto, ainda que Bane não tenha o fascínio do Coringa de Heath Ledger, há uma característica que o distingue desse último: o amor incondicional, a mesma fonte da sua dureza. Em uma cena curta mas comovente, vemos como, em um ato de amor no meio do sofrimento terrível, Bane salvou a garota Talia sem se importar com as consequências e pagando um preço terrível por isso (foi espancado quase até a morte por defendê-la). Karthick tem toda razão ao situar esse acontecimento dentro da longa tradição, de Cristo a Che Guevara, que exalta a violência como uma “obra do amor”, como nas famosas palavras do diário de Che Guevara: “Devo dizer, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado pelo forte sentimento do amor. É impossível pensar em um revolucionário autêntico sem essa qualidade”[9]. O que encontramos aqui nem é tanto a “cristificação de Che”, mas sim uma “cheização do próprio Cristo” – o Cristo cujas palavras “escandalosas” de Lucas (“se alguém vem a mim e não odeia seu próprio pai e mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e até a própria vida, não pode ser meu discípulo” [Lc 14:26]) apontam exatamente na mesma direção que a famosa citação de Che: “É preciso ser duro, mas sem perder a ternura”. A afirmação de que “o verdadeiro revolucionário é guiado pelo forte sentimento do amor” deveria ser interpretada juntamente com a declaração muito mais “problemática” de Guevara sobre os revolucionários como “máquinas de matar”:

O ódio é um elemento da luta; o ódio impiedoso do inimigo que nos ergue acima e além das limitações naturais do homem e nos transforma em eficazes, violentas, seletivas e frias máquinas de matar. Assim devem ser nossos soldados; um povo sem ódio não derrota um inimigo brutal.

Ou, parafraseando Kant e Robespierre mais uma vez: o amor sem crueldade é impotente; a crueldade sem amor é cega, paixão efêmera que perde todo seu vigor. Guevara está parafraseando as declarações de Cristo sobre a unidade do amor e da espada – em ambos os casos, o paradoxo subjacente consiste nisto: o que torna o amor angelical, o que o eleva acima da mera sentimentalidade instável e patética, é essa mesma crueldade, o seu elo com a violência – é esse elo que eleva o amor acima e além das limitações naturais do homem e o transforma em pulsão incondicional. É por isso que, voltando a O Cavaleiro das Trevas Ressurge, o único amor autêntico no filme é o de Bane, o “amor do terrorista”, em nítido contraste a Batman.

Nesse mesmo viés, a figura de Ra’s, pai de Talia, merece um exame mais cuidadoso. Ra’s é uma mistura de características árabes e orientais, um agente do virtuoso terror lutando para contrabalancear a corrompida civilização ocidental. O personagem é interpretado por Liam Neeson, ator cuja persona na tela geralmente irradia uma nobre bondade e sabedoria (ele faz o papel de Zeus em Fúria de Titãs), e que também representa Qui-Gon Jinn em A Ameaça Fantasma, primeiro episódio da série Star Wars. Qui-Gon é um cavaleiro Jedi, mentor de Obi-Wan Kenobi, bem como o descobridor de Anakin Skywalker, acreditando que Anakin é O Escolhido que restituirá o equilíbrio do universo, ignorando os alertas de Yoda sobre a natureza instável de Anakin; no final de A Ameaça Fantasma, Qui-Gon é morto por Darth Maul[10].

Na trilogia Batman, Ra’s também é professor do jovem Wayne: em Batman Begins, ele encontra Wayne em uma prisão chinesa; apresentando-se como Henri Ducard, ele oferece um “caminho” para o garoto. Depois que Wayne é libertado, ele segue até a fortaleza da Liga das Sombras, onde Ra’s está esperando, embora se apresente como servo de outro homem chamado Ra’s Al Ghul. Depois de um longo e doloroso treinamento, Ra’s explica que Bruce deve fazer o que for preciso para combater o mal, embora revele que eles treinaram Bruce para liderar a Liga com o intuito de destruir Gotham City, que eles acreditam ter se tornado irremediavelmente corrupta. Portanto, Ra’s não é a simples encarnação do Mal: ele representa a combinação de virtude e terror, a disciplina igualitária que combate um império corrupto, e assim pertence ao fio condutor (na ficção recente) que vai de Paul Atreides em Duna até Leônidas em300 de Esparta. E é crucial que Wayne seja seu discípulo: Wayne foi formado como Batman por ele.

Duas críticas do senso-comum se apresentam aqui. A primeira é de que houveviolência e matanças monstruosas nas revoluções reais, desde o estalinismo ao Khmer Vermelho, por isso está claro que o filme não está apenas engajado na imaginação revolucionária. A segunda, oposta, é esta: o atual movimento Occupy Wall Street não foi violento, seu objetivo definitivamente não era um novo reino do terror; na medida em que se espera que a revolta de Bane extrapole a tendência imanente do movimento OWS, o filme, portanto, deturpa de maneira absurda seus objetivos e estratégias. Os atuais protestos antiglobalistas são o exato oposto do terror brutal de Bane: este representa a imagem espelhada do terror estatal, uma seita fundamentalista e homicida dominada e controlada pelo terror, e não a sua superação por meio da auto-organização popular… As duas críticas compartilham a rejeição da figura de Bane. A resposta a essas duas críticas é múltipla.

Primeiro, devemos esclarecer o atual escopo da violência – a melhor resposta para a afirmação de que a reação violenta da multidão à opressão é pior que a opressão original foi dada por Mark Twain no seu Um ianque na corte do rei Artur: “Houve dois ‘Reinos do Terror’, se bem nos lembramos; um forjado na incandescente paixão, outro no desumano sangue frio. [...] Mas todos os nossos temores, que os tenhamos pelo menor terror, o momentâneo, por assim dizer; pois o que é o terror da morte súbita pelo machado se comparado à morte em toda uma vida de fome, frio, insulto, crueldade e desilusão? O cemitério de qualquer cidade pode bem conter os caixões cheios desse breve terror, que todos aprendemos com afinco a temer e lamentar; mas a França inteira mal conteria os caixões cheios daquele outro terror, mais antigo e verdadeiro, o terror de amargura e atrocidade indizíveis, que nenhum de nós aprendeu a encarar em toda sua amplitude ou desprezo que merece”.

Depois, deveríamos desmistificar o problema da violência, rejeitando afirmações simplistas de que o comunismo do século XX agiu com uma violência homicida excessiva demais, e de que deveríamos tomar cuidado para não cair mais uma vez nessa armadilha. Com efeito, trata-se de uma terrível verdade – mas esse foco voltado diretamente para a violência obscurece uma questão basilar: o que houve de errado no projeto comunista do século XX como tal, qual foi o ponto fraco imanente desse projeto que impulsionou o comunismo a recorrer (não só) aos comunistas no poder para a violência irrestrita? Em outras palavras, não basta dizer que os comunistas “negligenciaram o problema da violência”: foi um aspecto sócio-político mais profundo que os impulsionou à violência. (O mesmo se aplica à ideia de que os comunistas “negligenciaram a democracia”: seu projeto geral de transformação social impôs sobre eles esse “negligenciar”.) Portanto, não é apenas o filme de Nolan que foi incapaz de imaginar o poder autêntico do povo – os próprios movimentos “reais” de emancipação radical também não o fizeram e continuam presos nas coordenadas da antiga sociedade, e, por essa razão, muitas vezes o efetivo “poder do povo” foi esse horror violento.

E, por último, mas não menos importante, é muito simples dizer que não há potencial violento no movimento OWS e similares – há sim uma violência em jogo em todo processo emancipatório autêntico: o problema com o filme é que ele traduziu essa violência de uma maneira errada em terror homicida. Qual é, então, a sublime violência em relação à qual até mesmo o mais brutal assassinato é um ato de fraqueza? Façamos uma digressão em Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago, que conta a história dos estranhos eventos na capital sem nome de um país democrático não identificado. Quando a manhã do dia das eleições é arruinada por chuvas torrenciais, a quantidade de eleitores presentes é extremamente baixa, mas o tempo melhora no meio da tarde e a população segue em massa para as seções eleitorais. No entanto, o alívio do governo logo acaba quando a contagem de votos revela que 70% das cédulas na capital foram deixados em branco. Frustrado por esse aparente lapso civil, o governo dá aos cidadãos a chance de refazer o fato uma semana depois, em mais um dia de eleição. O resultado é pior: agora 83% dos votos foram brancos. Os dois principais partidos políticos – o governante partido da direita (p.d.d.) e seu principal adversário, o partido do meio (p.d.m.) – entram em pânico, enquanto o infeliz e marginalizado partido da esquerda (p.d.e.) apresenta uma análise afirmando que os votos brancos são, essencialmente, um voto por sua agenda progressiva. Sem saber como responder a um protesto benigno, mas certo de que existe uma conspiração antidemocrática, o governo rapidamente rotula o movimento de “terrorismo puro e duro” e declara estado de emergência, permitindo a suspensão de todas as garantias constitucionais e adotando uma série de medidas cada vez mais drásticas: os cidadãos são apanhados aleatoriamente e desaparecem em interrogatórios secretos, a polícia e a sede do governo saem da capital, proibindo a entrada e a saída da cidade e, por fim, fabricando seu próprio líder terrorista. A cidade toda continua funcionando quase normalmente, as pessoas se esquivam de todas as ofensivas do governo com uma harmonia inexplicável e com um verdadeiro nível gandhiano de resistência não violenta… isso, a abstenção dos eleitores, é um exemplo de “violência divina” verdadeiramente radical que desperta reações de pânico brutal nos detentores do poder.

Voltando a Nolan, a trilogia dos filmes do Batman, portanto, segue uma lógica imanente. Em Batman Begins, o herói continua dentro dos limites de uma ordem liberal: o sistema pode ser defendido com métodos moralmente aceitáveis. O Cavaleiro das Trevas é de fato uma nova versão de dois clássicos de faroeste de John Ford (Sangue de Heróis e O Homem Que Matou o Facínora) que retratam como, para civilizar o ocidente selvagem, é preciso “publicar a lenda” e ignorar a verdade – em suma, como nossa civilização tem de se fundamentar em uma Mentira: é preciso quebrar as regras para defender o sistema. Ou, dito de outra forma, em Batman Begins, o herói é simplesmente uma figura clássica do vigilante urbano que pune os criminosos naquilo que a polícia não pode; o problema é que a polícia, órgão responsável pela imposição das leis, relaciona-se de maneira ambígua à ajuda de Batman: enquanto admite sua eficácia, ela também considera Batman uma ameaça ao seu monopólio do poder e uma testemunha da sua ineficácia. No entanto, a transgressão de Batman aqui é puramente formal, consiste em agir em nome da lei sem a legitimação para fazê-lo: nos seus atos, ele nunca viola a lei. O Cavaleiro das Trevas muda essas coordenadas: o verdadeiro rival de Batman não é o Coringa, seu oponente, mas Harvey Dent, o “cavaleiro branco”, o novo e agressivo promotor público, um tipo de vigilante oficial cuja batalha fanática contra o crime o conduz ao assassinato de pessoas inocentes e o destrói. É como se Dent fosse a resposta à ordem legal da ameaça de Batman: contra a vigilante luta de Batman, o sistema gera seu próprio excesso ilegal, seu próprio vigilante, muito mais violento que Batman, violando diretamente a lei. Desse modo, há uma justiça poética no fato de que, quando Bruce planeja revelar ao público sua identidade como Batman, Dent o interrompe e se apresenta como Batman – ele é “mais Batman que o próprio Batman”, efetivando a tentação à qual Batman ainda era capaz de resistir. Então quando, no final do filme, Batman assume os crimes cometidos por Dent para salvar a reputação do herói popular que incorpora a esperança para o povo comum, seu ato modesto tem uma ponta de verdade: Batman, de certa forma, devolve o favor a Dent. Seu ato é um gesto de troca simbólica: primeiro Dent toma para si a identidade de Batman, e depois Wayne – o Batman verdadeiro – toma para si os crimes de Dent.

Por fim, O Cavaleiro das Trevas Ressurge ultrapassa ainda mais os limites: Bane não seria Dent levado ao extremo, à sua autonegação? Dent que chega à conclusão de que o sistema é injusto, de modo que, para combater a injustiça com eficácia, é preciso atacar diretamente o sistema e destruí-lo? E, como parte da mesma atitude, Dent que perde as últimas inibições e está pronto para usar toda sua brutalidade assassina para atingir esse objetivo? O advento dessa figura muda a constelação inteira: para todos os participantes, inclusive Batman, a moralidade é relativizada, torna-se uma questão de conveniência, algo determinado pelas circunstâncias: é uma guerra de classes aberta, tudo é permitido para defender o sistema quando estamos lidando não só com gângsteres malucos, mas com uma revolta popular.

Será, então, que isso é tudo? O filme deveria ser categoricamente rejeitado por quem se envolve em lutas emancipatórias radicais? As coisas são mais ambíguas, e é preciso interpretar o filme da maneira que se interpreta um poema político chinês: as ausências e as presenças surpreendentes também contam. Recordemos a antiga história francesa sobre uma esposa que reclama do melhor amigo do marido, dizendo que o amigo tem se insinuado sexualmente para ela: leva algum tempo para que o amigo surpreso entenda a mensagem – de uma maneira invertida, ela o está incitando a seduzi-la… É como o inconsciente freudiano que não conhece a negação: o que importa não é um juízo negativo sobre algo, mas o simples fato de que esse algo seja mencionado – em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, o poder do povo ESTÁ AQUI, encenado como um Evento, em um passo fundamental dado a partir dos oponentes habituais de Batman (criminosos megacapitalistas, gângsteres e terroristas).

Temos aqui a primeira pista – a perspectiva de que o movimento OWS tome o poder e estabeleça a democracia do povo em Manhattan é nítida e completamente tão absurda e irreal que não podemos deixar de fazer a seguinte pergunta: POR QUE UM IMPORTANTE BLOCKBUSTER DE HOLLYWOOD SONHA COM ISSO, POR QUE EVOCA ESSE ESPECTRO? Por que sequer sonhar com o OWS culminando em uma violenta tomada de poder? A resposta óbvia (manchar o OWS com acusações de que ele guarda um potencial terrorista totalitário) não é o bastante para explicar a estranha atração exercida pela perspectiva do “poder do povo”. Não admira que o funcionamento apropriado desse poder continue branco, ausente: nenhum detalhe é dado sobre como funciona esse poder do povo, sobre o que as pessoas mobilizadas estão fazendo (é preciso lembrar que Bane diz que as pessoas podem fazer o que quiserem – ele não impõe sobre elas a sua própria ordem).

É por isso que a crítica externa do filme (“sua retratação do reino do OWS é uma caricatura ridícula”) não basta – a crítica tem de ser imanente, tem de situar dentro do próprio filme uma multiplicidade de sinais que aponte para o Evento autêntico. (Recordemos, por exemplo, que Bane não é apenas um terrorista brutal, mas sim uma pessoa de profundo amor e sacrifício.) Em suma, a ideologia pura não é possível, a autenticidade de Bane TEM de deixar rastros na tecitura do filme. É por isso que o filme merece uma leitura mais íntima: o Evento – a “república do povo de Gotham City”, a ditadura do proletariado sobre Manhattan – é imanente ao filme, é o seu centro ausente.


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[1] Tyler O’Neil, “Dark Knight and Occupy Wall Street: The Humble Rise”,Hillsdale Natural Law Review, 21 de julho de 2012.
[2] Karthick RM, “The Dark Knight Rises a ‘Fascist’?”, Society and Culture, 21 de julho de 2012.
[3] Tyler O’Neil, cit.
[4] Christopher Nolan, entrevista na Entertainment 1216 (julho de 2012), p. 34.
[5] Entrevista de Christopher e Jonathan Nolan ao Buzzine Film.
[6] Karthick, cit.
[7] Forrest Whitman, “The Dickensian Aspects of The Dark Knight Rises”, 21 de julho de 2012.
[8] Karthick, cit.
[9] Citado em Jon Lee Anderton, Che Guevara: A Revolutionary Life, New York: Grove 1997, p. 636-637.
[10] Notemos a ironia do fato de que o filho de Neeson é um xiita devoto, e que o próprio Neeson às vezes fala sobre a sua futura conversão ao islamismo. 

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artigo publicado no blog da BOITEMPO EDITORIAL no link http://boitempoeditorial.wordpress.com/2012/08/08/ditadura-do-proletariado-em-gotham-city-artigo-de-slavoj-zizek-sobre-batman-o-cavaleiro-das-trevas-ressurge/


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

OS INFRATORES

Depois de significativo tempo sem postar nada próprio tendo em vista os compromissos do segundo semestre (pré-projeto de doutorado, seleção de doutorado e dissertação e mestrado), eia que surge a oportunidade de voltar a esse espaço que no seja apenas para divulgar atividades..
Ontem, em uma grande coincidência, surgiu essa postagem.. estava tocando meus estudos, escritos, leituras...fazia pouco que havia terminado a leitura do texto "legislações proibicionistas em matéria e drogas e danos aos direitos fundamentais (parte 1 e 2) da professora MARIA LUCIA KARAM na Revista VERVE (PUC/SP); quando resolvi encerrar os estudos e ver um filme...não havia assistido trailer, ou mesmo lido a sinopse..o filme chamado, OS INFRATORES. Conta a historia de uma família, durante o período da Lei Seca nos Estados Unidos, sendo que eram destiladores de bebida, produtores e distribuidores de uísque e conhaque..retratando sobretudo o período de 1930-33..ou seja... os estudos acabaram não parando.. pois, o filme trabalha e demonstra visualmente diversas questões, como a própria professora Karam, ou tantos outros que tem trabalhado e discutido a questão das drogas de forma critica, estivessem narrando seus próprios textos..

Em resumo, deixa muito claro o saldo produzido pela politica proibicionista, produtora de violência; não as substâncias - naquele caso o álcool, que hoje é tao corriqueiro no quotidiano -, mas sim a guerra que se trava contra aqueles indivíduos que são tornados estranhos, anormais, narcotraficantes, ou simplesmente infratores..demonstra ainda, que, mesmo com a politica proibicionista e demonizadora, não cessa o consumo, mantem-se a demanda, ampliam-se os lucros, e o interesse escuso da estrutura policial e de todo o sistema e suas dinâmicas de trocas de bens políticos, ou seja.. aumenta-se os riscos..

Demonstra o elemento econômico da atividade, tendo em vista o forte período de crise, sofrendo ainda os reflexos da crise de 29 (crash da bolsa de NY) enquanto para um grande contingente não restava o êxodo ou o suicídio, para algumas famílias, indivíduos, grupos a venda ilegal (ou seria trafico?) de bebida alcoolica se fez como a grande saída, produtora de elevados ganhos.. permitindo uma ascensão social e acesso à bens de consumo, que,de outra forma não seriam possíveis.

Por fim, demonstra, como, simplesmente se deu a legalização das atividades, do consumo, da distribuição... acabando com a corrupção policial, que era endêmica.. e acabando com a violência.. por mais estranhos que aqueles indivíduos pudessem essencialmente parecer, ou se fazer parecer - inimigos!

Espero, possa ser feito um filme deste período contemporâneo..como diria um amigo ..está-se vivendo um ciclo muito semelhante ao do inicio do seculo XX (período de 30 p.ex.)...e esse filme deixa isso muito claro.!!

trailer

ver tambem os textos para download da professora Maria Lucia Karam citados.
revista verve n. 12 2007.
revista verve n. 13. 2008


terça-feira, 31 de julho de 2012

CRIMINOROCK PELOTAS


Um evento que abordará o rock além da música. A partir de quarta-feira (1°) estarão abertas as inscrições para o seminário Criminologia Cultural e Rock da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), um encontro jurídico-acadêmico composto por palestras, debates e interações artísticas que traz a possibilidade de abordar a ciência do Direito sob uma perspectiva da Criminologia Cultural e outras conexões teóricas.
Promovido pelo curso de Direito da UCPel, o seminário ocorrerá no dia 17 de agosto e tratará do rock enquanto fenômeno subversivo e transgressor, procurando dar voz a um dos discursos silenciados pelo poder punitivo e pelo status quo. Segundo a organização do evento, ele se insere no contexto de uma criminologia que procura percorrer seu sentido, estabelecendo contraposição à fixidez com que geralmente são estigmatizados. No seminário ainda se buscará o diálogo entre outros gêneros musicais além do rock, como punk, samba e hip hop. 

A inspiração para o evento vem da necessidade de promover atividades extracurriculares que interessem aos alunos e que tragam para sua formação uma possibilidade crítica de análise dos atuais institutos jurídicos. O encontro pretende promover um pensamento mais crítico e abrangente sobre o Direito, além de incentivar os acadêmicos a conhecer e respeitar os movimentos ditos "contraculturais" como parte de sua própria cultura a partir de uma análise da construção histórica do rock.

Além da participação de alguns professores que compõem o corpo docente do curso de Direito da UCPel, os palestrantes são Salo de Carvalho, Moysés Pinto Neto, Marcelo Mayora e José Antonio Gerzson Linck, pesquisadores e autores do livro que dá o nome ao seminário – Criminologia Cultural e Rock, lançado em 2011.


O seminário Criminologia Cultural e Rock ocorre durante todo o dia 17 de agosto – manhã, tarde e noite – no Auditório Dom Antônio Zattera. A programação inclui palestras, debates, mostra temática de cinema e um sarau jurídico-literário. O investimento é de R$ 25,00 até o dia 10 de agosto. Após essa data, e até o dia do encontro, o valor passa para R$ 30,00. As inscrições podem ser feitas na Livraria São José, que fica no saguão do Campus I (rua Gonçalves Chaves, 373). Os participantes recebem certificado.




ORGANIZAÇÃO - FACULDADE DE DIREITO  -UCPEL
REALIZAÇÃO - NUCLEO DE ESTUDOS EM DIREITOS HUMANOS E AMERICA LATINA

sábado, 9 de junho de 2012

Quadrinhos puros do direito - Luis Alberto Warat


estava lendo a obra "territórios desconhecidos: a procura surrealista pelos lugares do abandono do sentido e da reconstrução da subjetividade" de Luis Alberto Warat como 1º volume de uma coleção de 4 reeditado pela Universidade Federal de Santa Catarina e a Fundação Boiteux (2004) e pensando que estas leituras deveriam ser mais frequentes aos alunos direito...ficando esta sugestão como tributo ao grande pensador do direito, Warat e seu legado de reflexões e devaneios jurídicos de extrema lucidez.. ou, nas mais singelas palavras, artificio que o autor soube fazer uso com tal maestria.. 

Leer Warat es más que una singular lectura, es un proceso de inmersión en sí mismo!


03 - Auxiliar - Os Quadrinhos Puros Do Direito - Warat & Cabriada

referências:
WARAT, Luis Alberto. territorios desconhecidos [...] FLorianopolis: Boiteux, 2004.

quinta-feira, 22 de março de 2012

o cinema, a vida e a pedagogia da libertação!!

Venho nesta postagem tem um duplo objetivo e ambos estão interligados.

O primeiro deles, a indicação do filme Redenção (titulo original Machine Gun Preacher) que assisti ontem e que trata de diversas questoes complexas e problematicas. Uma delas a questao das guerras tribais na Africa e do recrutamento de crianças para os exercitos infantis.. o que o filme mostra de forma (nao sensacionalista) muito bem construída.

Mostra tambem uma questao interessante, que pouco se dá atenção, seja na ciencia, na mídia ou mesmo no cinema, e que divide opinioes, pré-conceitos e diversos equivocos, a questao da religião.

Sem adentrar no merito do tema, pois acredito que este espaço é insuficiente, e tambem que requer uma apropriação teorica maior, acredito que se pode dizer - como o faria o carissimo amigo e professor Luiz Antonio Bogo Chies - que o filme trata da religiao a partir dos seus limites e possibilidades; tendo em vista que demonstra o quanto a religiao ou crença (seja qual for) pode ser transformadora e impulsionadora, para alem do que a ciencia e a consciencia por vezes tem se mostrado capazes!! Assim como tambem demonstra os limites desta mesma crença/religiao, entrando, em cena entao a consciencia e o conhecimento cientifico/comum (de causa)!!

Em resumo o filme retrata um homem convertido pela religiao, que se engaja na luta pela libertação de um país africano, sobretudo defendendo os interesses das crianças da regiao de conflito (filme baseado em fatos reais - treiler segue logo abaixo)!

E em segundo lugar, enaltecer a iniciativa de Paula Ferreira, aluna (egressa) da Universidade Catolica de Pelotas (UCPel) tendo se formado no ano de 2011 em Direito, e ido para Benin na Africa, onde está trabalhando com crianças em escolas, vilarejos, etc.. (tenho acompanhado as publicações em seu blog pessoal - http://olharesdepaulinha.blogspot.com.br/).

Nao tenho maiores informaçoes acerca da vinculaçao institucional que ela tenha, seus objetivos, ou mesmo intenções com este seu projeto social e pessoal - e acho que isso nao é o que mais importa - ao menos nao para esta singela referencia.

O que me interessa foi a coragem dela; recem formada, e com (até onde sei) uma condição de vida cômoda e segura em Pelotas, ter se deslocado para a Africa ajudar crianças, ao invés de estar em casa ou em um cursinho se preparando para algum concurso qualquer da area juridica e virtualizando um subsidio de 15 ou R$ 20.000,00, como a grande maioria dos estudantes e formados em direito o fazem (e continam entoando discursos humanitarios!!).

Ainda, acho interessante o que ela tem retratado, atraves de seus depoimentos e fotos (postadas quase diariamente) a alegria em que vivem as pessoas, apesar de toda a dificuldade, sempre com o sorriso no rosto e a disposição de (sobre)viver, diferentemente do mundo ocidental, com todas as suas promessas e conquistas permeado pela constante reclamação do que ainda nao chegou e do quanto o fardo de carregar o resto do mundo é pesado!!! como diz Alain Touraine nem tudo no submundo é tristeza, e muito menos no sobremundo é alegria.. e acho que a Paula tem mostrado isso atraves da lente de sua experiencia..encontremos o que ha de bom nos mundos, nas experiencias, nas pessoas!! entendo que o que a Paula está realizando na Africa é a autentica pedagogia da libertação de que fala Paulo Freire, ou a filosofia da libertação proposta por Enrique Dussel!! Como diria Boaventura de Sousa Santos, é preciso ir saindo da modernidade, ou, desocidentalizar o ocidentte!!

Nao pretendo, com esta postagem traçar paralelos, apenas a aproximação do que se ve no filme e da iniciativa, imensamente corajosa da Paula na Africa.!!  



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A cruzada humanitária do capital

Post para divulgar e indicar um ótimo filme que é “A informante” (título original: The Whistleblower) e que trata do paradigma ocidental de direitos humanos na cruzada humanitária capitaneada pelos Estados Unidos que leva /impõe ao mundo seu modus vivendi.

O filme trata em especial do caso do tráfico de seres humanos para fins sexuais, em específico o caso da transição ou pacificação da região dos Bálcãs e a influência da Organização das Nações Unidas.. órgão central (para não dizer único reconhecido) no que diz respeito aos human rights...

Retrata de forma ímpar o entrecruzamento de interesses privados que manejam a ONU, e assumem um único sentido, a obtenção e maximização do lucro, ao custo de vidas e sofrimentos humanos, ao passo que se esforçam, unicamente, por manter uma imagem falaciosa internacional de luta humanitária, correção moral; ética; neutralidade, profissionalismo, etc...

Deixa claro ainda, a importância econômica das guerras modernas (e conflitos de menor projeção), sobretudo para as agências privadas (que atuam a partir da terceirização governamental americana), tendo em vista que as mesmas agências (que o filme denuncia), ainda mantém contrato com o governo dos Estados Unidos para atividades humanitárias no Iraque e Afeganistão..

Ficha técnica A Informante (The Whistleblower)
Sinopse: A história verídica de Kathryn Bolkovac, uma ex-policial que aceitou trabalhar na missão de paz da ONU na Bósnia. Depois de ser demitida por expor o envolvimento dos agentes da ONU no tráfico sexual no país, ela processou seus empregadores
Diretor: Larysa Kondracki
Ano: 2010
Duração: 98min
País: Alemanha / Canada
Gênero: Drama
treiler:

domingo, 6 de novembro de 2011

ciclos intermináveis de estranhamento


Acabei de assistir, novamente, o filme Crash: no limite que retrata de forma ímpar a sociedade americana e toda a sua estrutura humana multifacetada, pluricultural e permeada/entrecruzada de racismos, machismos, preconceitos, medos, intolerâncias [...] estranhamentos vários! Talvez não seja uma característica única da sociedade americana, mas de todos os países ocidentais modernos..
Interessante como o filme entrecruza as histórias de modo a demonstrar a interdependência entre as pessoas, suas histórias e seus discursos, muitas vezes autotraídos e paradoxais..
Demonstra como os estranhamentos em grande parte começam com situações banais da vida quotidiana (ou meros desconfortos da vida moderna), o que permite perceber o grau de intolerância que encobre a capacidade humana de resolver seus conflitos e, então, intensifica-se o ciclo de produção de dor e sofrimento.
O filme é um ótimo estudo de sociologia, tantos temas que a sociologia, a antropologia, a filosofia tem se proposto a estudar e tem dado tantas respostas convincentes e plausíveis, entretanto, vê-se o quanto a ciência é incapaz de resolver as questões da vida das pessoas, já que grande parte das pessoas não acessa esta ciência! E, assim, essa ciência se torna um conhecimento como mero objeto de desejo e contemplação acadêmica!
Ainda, como apresenta a ilha em si mesmo em que cada individuo se tornou, isolado e crente na sua autossuficiência livre e só! Maravilhoso!, se é que se pode dizer que a realidade da vida quotidiana de estranhamento entre seres pode ser tornar em uma obra artística tão bela.
Encerra o filme com dois elementos a se fazer referencia! O inicio de um novo ciclo de estranhamento por conta de um acontecimento banal e rotineiro e o desencadeamento de historias (infelizes) que se cruzam.. e também a musica do stereophonics “maybe tomorrow”:
I've been down and I'm wondering why
These little black clouds keep walking around with me,
With me
It waste time and I'd rather be high
Think I'll walk me outside and buy a rainbow smile but be free,
They're all free
So maybe tomorrow I'll find my way home
So maybe tomorrow I'll find my way home
I look around at a beautifiul life
Been the upperside of down
Been the inside of out but we breathe,
We breathe 
I wanna a breeze in an open mind
I wanna swim in the ocean
Wanna take my time for me,
All me
So maybe tomorrow I'll find my way home
So maybe tomorrow I'll find my way home 
So maybe tomorrow I'll find my way home
So maybe tomorrow I'll find my way home


segunda-feira, 27 de junho de 2011

En mejor estilo Dussel, con las venas abiertas

Esta postagem não é para fazer a sugestão de um filme, mas sim uma exaltação de uma obra prima que deve ser assistido por todo mundo, sobretudo qualquer latinoamericano que se preze.

O filme se chama – También La Lluvia (ever the rain)
Dirigido por: Iciar Bollaín
España 2011 (filme muito provavelmente inédito no Brasil e no mundo.. mas como isto aqui só tem fim cientifico e por uma tomada de consciencia, entonces el Capital no se importa..!! / sitio para download http://www.degracaemaisgostoso.org/filmes/page/5)

A obra retrata um grupo de produtores cinematográficos alternativos que se dispõem a filmar e representar a história de Bartolomé de Las Casas e a história da colonização/dizimação espanhola. E que nossos livros de histórias ordinários (no sentido semântico e pejorativo da palavra) insistem em esquecer, ou simplesmente apagar/silenciar!!

Entretanto, tal filmagem se dá em meio ao processo de privatização da distribuição da água na Bolívia e a consequente onda de manifestos e produção de revolta, que se transforma no pior monstro (de que fala Negri) que a modernidade pode enfrentar.. e no monstro que temos que nos transformar diariamente..

Para não adentrar mais no mérito da obra.. e não retirar a curiosidade.. termino esta incitação apenas con una cita del película “fuzil, metralla, el pueblo no se calla..” – e ainda que.. com perdão da terminologia – es una película de carajo!!! E no melhor estilo Enrique Dussel e Eduardo Galeano, com suas (e nossas) venas abiertas de la  America Latina.!!!!


trailer oficial:

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Moderna Metáfora de Luta anti-Imperial


Na Atenas Global Moderna, local desterritorializado do mercado da política, só sendo um semideus mesmo, junção de um Deus e uma humana. Que lhe possibilite a capacidade de enfrentar as agruras diárias que o sistema produz e intensifica.

Esta postagem é no sentido de indicar o Filme “os 12 trabalhos”, alusivo à mitologia grega, e que procura retratar o dia-a-dia de Héracles, um jovem recém saindo da FEBEM, que procura mudar de vida através de um trabalho de motoboy na grande São Paulo, ou ser purificado e adentrar no sistema mundo de mercado, da exploração capitalista, obviamente que na posição de explorado, demonstrar que foi socioeducado, transformando-se obediente e silente ao sofrimento que estava escolhido a enfrentar.
Enquanto assistia ao filme, lembrava as leituras de Antônio Negri e Michael Hardt em IMPÉRIO (2006), quando tratam da dissolução do 3º mundo pela modernidade. Tendo este mundo se dissolvido e permeado o 1º que hoje colonizou o planeta, apresentando-se sob a forma de guetos, favelas [...] e tal condição é muito bem visível na fotografia do filme.

Nesse sentido, foi muito interessante e apropriado o titulo do filme, bem como a alusão à mitologia grega (e a personagem especifico utilizado), tendo em vista que, somente dotando os personagens sociais do terceiro mundo, encravados no primeiro, é que se faz possível suportar ou conseguir vencer o Império.

E também, é nesta linha que penso, enquanto o mundo assiste aos episódios no Egito, e comemora a queda de mais uma ditadura.. se faz cada vez mais presente o paradigma ditatorial liquido da sociedade moderna ocidental, e que infelizmente não conta com nenhum levante de jovens, de estudantes, ou de deuses!! Ainda que sejam de grande importância e significação as vitórias populares do Cairo, devem se comunicar, não só este, mas todos os processos de luta, produzindo uma rede de combate ao sistema, e, sobretudo, atenção e reflexão redobradas, nos casos de inimigos invisíveis e impessoais que comandam o IMPERIO do capital e seu paradigma de sociabilidade.

Assim, contra este inimigo despersonificado, prefiro a metáfora do Vampiro, utilizando novamente Negri e Hardt, pois é todo e puro sentimento, pulsação, paixão, sexualidade, carne e sangue ...

nossos vampiros contemporâneos revelam-se diferentes. Os vampiros continuam sendo marginais na sociedade, mas sua monstruosidade ajuda os outros a reconhecer que somos todos monstros – colegiais rebeldes, portadores de desvios sexuais, aleijões, sobreviventes de famílias patológicas e assim por diante (MULTIDAO: guerra e democracia na Era do Império, 2005)

...ainda que sejam vistos como meros corpos mortos, e isso quando são vistos.

“uma cidade é cimento, pedra, ferro.. gente se agitando em seus espaços, vãos.. a pedra e o ferro permanecem, os seres que se agitam vem e vão! [...] bairros indicam classes, ruas indicam quem você é, dependendo da onde você nasceu, já é, tua história tá escrita antes mesmo dela começar” (fala inicial de Héracles – Os 12 Trabalhos)

Não é o melhor filme nacional que vi... mas apresenta de forma bem original e singela a vida de um individuo, que teve as suas expectativas roubadas, e convive com seus sonhos, esperanças de que as coisas sejam diferentes.. um filme que não pretende se justificar e demonstra a maturidade do cinema nacional.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Distrito 9 e a capacidade da modernidade de asilar

A presente postagem é no sentido de inaugurar a seção de filmes estrangeiros neste blog, tendo em vista que até então foram indicados apenas filmes nacionais, não que estes tenham esgotado seu potencial criativo.

Tal seção é inaugurada com a indicação do filme “Distrito 9” do diretor Neill Blomkamp (2009). A indicação e lembrança deste filme surge no decorrer das leituras de “vidas desperdiçadas” de Zygmunt Bauman (2005). Na parte em que trabalha a problemática do asilo econômico, imigração ou refúgio, resultado do processo de modernização e seu projeto politico e a consequente necessidade de descarte de indivíduos, em contingentes sempre crescentes, que não se adequam ao paradigma de sociabilidade, ou o paradigma de sociabilidade moderna e ocidental que não possui espaço para este contingente de indivíduos, e os espaços estão cada vez mais diminuindo, tendo em vista o objetivo de ser leve e fluido, sem fronteiras ou laços que o prendam.

O filme apresenta a relação travada com um contingente de alienígenas que vivem na terra, tendo estes recebido asilo, tendo em vista que se desalojaram de sua terra natal. Entretanto, tal condição se faz como um amontoado, constantemente vigiado e estudado, já que possuíam um potencial tecnológico superior.

O que chama a atenção é a forma como são tratados e como a relação é pautada/ gestionada. Encerrados num verdadeiro campo de concentração, o Outro, o alienígena que representa a ameaça que reside no diferente, no desconhecido, no inassimilável.

O filme retrata uma suposta relação fictícia entre humanos e alienígenas, entretanto, tal condição é levada à cabo em condições reais, no dia-a-dia de diversos contingentes de indivíduos descartados pela dinâmica global de produção de lixo humano e a sua remoção ou armazenamento. Vale a colocação de Bauman:
A caminho dos campos de refugiados, os futuros internos se veem despidos de todos os elementos que compõem suas identidades, menos um: a condição de refugiados sem Estado, sem lugar, sem função. De dentro das cercas do campo, são reduzidos a uma massa sem rosto, e lhes é negado o acesso às amenidades elementares das quais se extraem as identidades, assim como dos fios com que elas são tecidas (BAUMAN, 2005: 97)

Nesse sentido, é a categoria de homo sacer de Giorgio Agamben, o individuo supérfluo que vive uma vida que não merece ser vivida. Desta feita, mata-los não é qualquer crime, assim como também não serve como ritual, uma vida nua.

Análise semelhante fez Hannah Arendt, ao analisar os campos de concentração da segunda Guerra Mundial e o processo de desconsideração da personalidade de determinado grupo de seres..

E tal condição tem permeado a forma e o trato que se dispensa com os guetos urbanos, realidade muito apropriada para o Brasil, sendo esta uma forma de asilo econômico, encerramento e depósito de indivíduos que não fazem parte do mapa cognitivo da modernidade consumista e sua trama de relações, e ainda, de pessoas que não tem qualquer perspectiva de vir a fazer parte deste grupo, pois as pontes foram destruídas. Temas muito bem tratados por Loic Wacquant.
Segue o treiler do filme: